Onda gigante




Aproxima-se o segundo aniversário da data mais marcante da minha vida - a partida do meu pai para outros vôos.
Tendo pessoas ao meu redor a viver agora momentos de perda, senti o apelo de fazer esta partilha.

O momento mais doloroso para mim, estranhamente (ou não), não foi o próprio dia ou os dias seguintes.
Passado o choque de acordar com a notícia, recebida por telefone, pela voz de uma estranha, julgo que passei por um momento de dormência, algo mecânico.
Aquela voz e aquelas palavras ficaram impressas nas minhas memórias com tanta nitidez que, creio, jamais me abandonarão. A médica fez o seu impossível papel de me preparar o melhor que pode, até que eu, já bem desperta com aquela conversa que me parecia estúpida e demasiado enrolada para as 8h da manhã, lhe perguntei, exaltada:
- Sim, Dra., mas o meu pai está bem?
- Não.
- (Enchi o peito de ar e preparei-me para o impacto) O meu pai está vivo???
- Não. - Um não tão pequeno, quase inaudível, esmagou-me como se o Grand Canyon me tivesse caído em cima. E logo a seguir um clique, a adrenalina mais intensa que alguma vez sentira tomou-me conta do corpo e entrei em modo ON. Era preciso avisar a minha mãe e a minha irmã, os familiares e amigos, tratar das formalidades no hospital, tratar dos preparativos para o funeral, receber as pessoas que começavam a chegar. Lembro-me de telefonemas. Muitos telefonemas, em que eu acabava a tentar confortar quem se encontrava do outro lado da linha. No meio de lágrimas descontroladas e dor, eu estava funcional.
Seguiram-se os inevitáveis rituais de velório e funeral, e apesar de muito dolorosos, senti-os como "normais". Era normal, expectável e aceite, o meu sofrimento, era normal o sofrimento dos restantes presentes. Todos tínhamos em comum a perda de alguém querido, e todos estávamos a viver aquele momento. O ambiente ao meu redor era congruente com a devastação que me consumia.

O pior momento veio depois, onde não o esperava, e lembro-me dele com precisão cirúrgica: a primeira ida ao supermercado. Quando as portas do centro comercial se abriram, o impacto em mim foi tão brutal que as pernas me falharam, senti-me a desmaiar. Aquela imensidão de gente, vozes, sons, cheiros e luzes bateu no meu corpo com a força de uma onda gigante.
O mundo continuava igual. E eu não estava preparada para isso. As pessoas continuavam nas suas vidinhas, nas conversas de circunstância, a tomar café ao balcão, a fazer compras, a passear pelos corredores dos centros comerciais. Aquilo chocou-me. Como podia o mundo continuar igual, quando o meu mundo tinha mudado para sempre?? Não o sabiam, aquelas pessoas?! Apeteceu-me gritar-lhes "Parem, seus idiotas!! O meu pai morreu! Parem de se rir e conversar uns com os outros como se nada fosse!"
O mundo continuava igual. E eu teria de aprender a viver neste novo mundo igual. Eu teria de voltar a fazer compras, a trabalhar, a falar com pessoas, e até a rir-me. Eu teria de continuar de pé, como um farol, a propagar a minha luz. Parecía-me impossível voltar a sentir-me luz. Sentia que se me risse, se ouvisse música, se me distraísse com um filme, se me divertisse com amigos, se me esquecesse da dor, por um minuto que fosse, estaria a trair o amor do meu pai; estaria a dizer-lhe: já te esqueci.
Levei algum tempo a aceitar que podia e devia ouvir musica. Mais tempo ainda até me rir sem culpa, sem vir o pensamento "o pai partiu, estás a rir-te de quê?!"
Mas o mundo continuava igual. E eu continuava cá. Não era mais a mesma, jamais o seria, mas encontrei forma de voltar a integrar este novo eu no mundo que, continuando igual, não tornaria a ser o que fora. Só tive de me dar algum tempo. O tempo necessário para compreender que viver plenamente a bênção de estar viva é a melhor forma de honrar quem amo, e celebrar a vida de quem comigo caminhou, me amou e me marcou.

Jamais se esquece a perda de alguém inesquecível.
Mas, mais importante que isso, e que aprendi depois, é que jamais se esquece a dádiva de uma vida que foi, e continuará a ser, marcante.
Jamais se perde um amor.





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