Até, minha mãe, até




Uma montanha de Nada

Era uma vez dois gémeos.
Quando nasceram, os seus pais deram a cada um uma montanha de moedas de ouro.
Um dia levaram-nos até às duas montanhas e disseram-lhes que aquelas montanhas eram a sua fortuna, e que competia a cada um gerir a sua o melhor que soubesse.
Um dos meninos desde logo pensou em muitas coisas onde iria usar a sua fortuna! O outro, pelo contrário, decidiu que a queria guardar para o futuro, e todos os dias, dia após dia, ele sentava-se no topo da montanha e ficava a contemplá-la.
De vez em quando via o irmão ir a correr buscar um punhado de moedas à sua montanha e desaparecer novamente. Ele não! Não as gastava consigo; não as dava a ninguém - apenas as guardava. Um dia iria aparecer o investimento certo. Um dia ele iria saber dar-lhes o melhor uso possível.
À medida que o tempo passava, parecia-lhe que a sua montanha ía ficando mais pequena, tal como a do seu irmão... mas pensou que era ele que estava a crescer; seria certamente uma questão de perspectiva.
Só quando o menino se transformou em adulto e o seu corpo parou de crescer, ele percebeu que a sua montanha estava de facto a mingar. Em menos de nada já ela estava a menos de meio, tal como a do seu irmão, que continuava a fazer saques regulares. Como podia ser? O que havia de errado com a sua fortuna? Como podia estar a diminuir se ele não a gastava, se não a usava em nada?!
Desconfiando que o estariam a roubar, o homem, agora ex-milionário mas ainda muito rico, já não abandonava a sua montanha nem para dormir, nem para comer - para nada! Isolou-se do mundo, não permitia que ninguém se aproximasse, tornou-se num homem cada vez mais amargo, convencido que todos queriam rapinar-lhe o que conseguissem. A sua vida era agora, apenas e só, dedicada a vigiar a sua montanha que, ainda assim, continuava a diminuir de dia para dia, até que desapareceu por completo diante dos seus olhos incrédulos.
E foi só quando, já homem maduro, ficou sentado no chão, fixado na última moeda do seu tesouro, e a viu entrar pela terra adentro, que ele pôde perceber que por baixo da sua montanha havia uma fenda, pequenina, quase imperceptível, por onde as moedas, muito lentamente, uma a uma, iam escoando, para um buraco sem fundo e sem retorno. A sua fortuna estava para sempre perdida.
Quando o seu irmão veio, em júbilo, buscar o último punhado de moedas que lhe restava, ficou muito surpreendido de o encontrar a chorar.
- Porque choras, meu irmão? Vejo que também conseguiste gastar a tua fortuna!
- Gastar??? - gritou indignado - Eu não gastei nem uma moeda!
- Então, o que lhe aconteceu?
- A terra engoliu-a. - E chorava - Tu que fizeste da tua?
- Ah, bom, eu estudei!
- Estudaste? E esbanjaste assim toda a tua fortuna?
- Bem... começou por aí. Estudei, li muito. Depois quis visitar os sítios sobre os quais tinha lido, e corri o mundo. Depois quis trazer o mundo a quem não o podia conhecer, e tornei-me professor. Ajudei a construir escolas e bibliotecas. Organizei eventos e viagens. Participei em mil aventuras. Fiz amigos. Celebrei com eles muitas coisas. Apaixonei-me por uma mulher fantástica, que me presenteou com dois filhos. Demos a cada um a sua montanha de moedas de ouro. E agora que consegui gastar toda a minha fortuna, com o meu o último punhado de moedas vou fazer uma grande festa com todas as pessoas que estiveram na minha vida por todos estes anos! Queres vir?
Não tinha grande vontade para festas, nem entendia ainda como se podia celebrar o facto de se ter gasto uma fortuna, mas na realidade já não tinha nada para vigiar, e acabou por acompanhar o irmão até à sua festa.
Só quando viu tudo o que o irmão tinha construído, todos os amigos, a família, tantas pessoas que lhe queriam bem, só então, aquele homem amargurado, pobre e vazio, percebeu que quem tinha desbaratado a fortuna afinal... era ele. Toda a sua fortuna estava perdida para sempre, sem que ele a tivesse utilizado em nada, sem que tivesse construído coisa alguma, sem que a tivesse partilhado com alguém, ou usufruído de forma alguma, além de ficar sentado no topo, impassível, a senti-la escoar-se lentamente.
É certo que provavelmente as suas moedas se esgotariam sem que conseguisse fazer tanto como o irmão, já que por baixo da sua montanha havia uma fenda. Ainda assim, pensou, era tanto o que poderia ter feito...


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A minha mãe foi uma pessoa muito especial. Um caso atípico. "Um alien!" - brincávamos tantas vezes. 
Neste conto ela seria, de alguma forma, os dois irmãos. Quem a conheceu bem, sabe que não poderia ser de outra forma. Uma informática que escrevia poemas. Personificação perfeita da bipolaridade, toda a vida foi mulher de extremos, sempre jogou ao Tudo ou Nada.
A primeira parte da sua vida, passou-a a querer usar a sua fortuna com uma sofreguidão desmedida, como se não houvesse amanhã. Amava desmesuradamente. Lutou, escavou, construiu. Casa, família, uma carreira brilhante, um grupo de amigos, um bom punhado de valores que defendia de unhas e dentes, pelos quais lutava, destemida, contra tudo e todos. E foi tal a intensidade com que o fez, tal a voracidade, que um dia... as forças esgotaram-se-lhe, bem antes de conseguir esgotar a sua fortuna. Sentou-se então no alto das suas moedas de ouro (tantas que ainda havia por gastar!) à espera. À espera que o futuro lhe devolvesse a força, à espera de voltar a sentir vontade de sequer olhar para as suas moedas, à espera do momento de voltar a viver. E, por fim, apenas à espera que a última moeda encontrasse o caminho até à fenda e desaparecesse terra adentro.
Há muito que desistira de viver. Sobrevivia. Respirava. A custo.
Divido-me entre a dor da perda e o alívio de a saber melhor - em paz. Conforta-me saber que partiu como queria, sem ter de passar por momentos ainda mais dolorosos e menos dignificantes. Conforta-me saber que passou os últimos dias acompanhada pela família, rodeada de amor, que cumpriu o desejo de estar com os pais e as irmãs, que pôde ainda sorrir com os sobrinhos e sobrinhas-netas. Que no último instante, ainda foi a tempo de conseguir usar as suas últimas moedas de ouro.

E não posso, ou não quero, deixar passar este momento sem me lembrar e sem vos lembrar que o tempo é, de facto, o bem mais precioso que temos. Que o tempo que nos é doado à nascença é o nosso ouro. Que devemos investi-lo com o cuidado de quem investe toda a sua fortuna. Que o devemos valorizar e aproveitar como a dádiva que é, ao invés de o esbanjarmos tão displicentemente, iludidos de que o estamos a guardar, que nos estamos a guardar para algo melhor, que há-de vir, que estamos a guardar a vida para a vivermos mais tarde, quando nos for mais conveniente, quando aparecer o momento que valerá a pena viver,  sempre arrogantemente convencidos que o tempo nunca nos faltará. 
Quero lembrar-me, e lembrar-vos, que paremos de culpar os outros pela nossa falta ou desperdício de tempo: ninguém nos está a roubar a fortuna, somos nós que, levianamente, o relegamos para segundo plano, sem realizarmos que o verdadeiro tesouro não são os bens acumulados, mas os momentos vividos a conquistá-los e a usufrui-los.
Temos tempo... achamos sempre que teremos tempo... mais tarde. Adiamos, protelamos, procrastinamos. Amanha eu faço. Amanhã eu cuido(-me). Amanhã eu amo(-me). Amanhã eu vivo.

A minha mãe esgotou as suas moedas aos 65 anos, o meu pai aos 62. Há quem as veja desaparecer aos 40 - os que farei daqui a uns meses, se me for concedida mais essa graça. Há quem fique sem elas aos 20, aos 10, aos 2...
A minha mãe ía mudar de vida. A minha mãe ía cuidar-se. A minha mãe ía voltar a viver. Já a partir de Janeiro. "Meia-noite! Ano novo, vida nova. Agora é que é. A partir de amanhã..." 
A minha mãe não teve amanhã. Não teve ano novo. Não teve vida nova.  

Desejo fervorosa e humildemente acordar todos os dias com a pergunta "E se hoje fosse o último dia da minha vida?" e adormecer com a resposta "Teria sido um último dia feliz."  


Beijões, gordinha!






3 comentários:

  1. Emocionante! Parabéns Phenix, parabéns pela sabedoria do teu coração e por esse ser especial que és... Parabéns pelo belo texto. Beijinho,Ceiça Lima

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  2. Os meus sentimentos minha linda xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii<3 bem apertadinho

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  3. parabéns... marco antunes

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